Rastreio patologia do colo

/Rastreio patologia do colo

O cancro do colo do útero constitui a segunda causa de morte por cancro nas mulheres com menos de 44 anos.

Todos os anos são diagnosticados cerca de mil novos casos de cancro do colo do útero em Portugal, sendo o país da Europa Ocidental com a taxa de incidência mais elevada deste tipo de cancro.

O cancro do colo do útero é provocado pela infecção persistente por um dos 15 tipos de Vírus do Papiloma Humano (HPV) de alto risco. A infecção é transmitida através de contacto sexual, sendo extremamente comum em mulheres jovens na primeira década de actividade sexual. A maioria dos adultos já foi num dado momento da sua vida infectado com HPV mas apenas 10% das infecções se tornam persistentes podendo causar lesões pré-cancerosas. Por sua vez, o cancro do colo do útero surge numa pequena percentagem destas.

Existem 2 formas de prevenção do cancro do colo do útero:

  1. Prevenção primária – através da vacinação contra o HPV. A vacinação é muito segura e tem uma eficácia de quase 100% na prevenção do cancro do colo do útero.

Estão disponíveis 3 vacinas:

  • Bivalente (Cervarix®) – está indicada para a prevenção do cancro do colo do útero provocado pelos HPV de alto risco 16 e 18.
  • Quadrivalente (Gardasil®) – está indicada para a prevenção do cancro do colo do útero provocado pelos HPV de alto risco 16 e 18 e para a prevenção das verrugas ou condilomas genitais provocadas pelos HPV de baixo risco 6 e 11.
  • Nonavalente (Gardasil 9®) – está indicada para a prevenção do cancro do colo do útero provocado pelos HPV de alto risco 16, 18, 31, 33, 45, 52 e 58 e para a prevenção das verrugas ou condilomas genitais provocadas pelos HPV de baixo risco 6 e 11.

A vacina nonavalente é disponibilizada através do plano nacional de vacinação num esquema de duas doses (0 e 6 meses) a administrar a raparigas aos 10 anos de idade. A partir dos 15 anos de idade deve ser feita uma administração de 3 doses (0, 2 e 6 meses), estando demonstrada a eficácia da vacina até aos 45 anos.

Desmistificando a vacina contra o cancro do colo do útero…

  • Não está recomendada a realização de qualquer teste antes da vacinação.
  • A vacinação deve ser realizada independentemente do início ou não da actividade sexual e do número de parceiros sexuais.
  • Como a vacina não protege contra todos os tipos de HPV, continua a ser necessário realizar o rastreio do cancro do colo do útero.
  • A vacina não é teratogénica embora não esteja indicada durante a gravidez (devendo ser interrompido o esquema vacinal). Não está contraindicada durante a amamentação.
  1. Prevenção secundária – através da realização de um teste de rastreio ao colo do útero. O objectivo do rastreio é diminuir os casos de morte por cancro do colo do útero. Isto é conseguido através da:
  • detecção de lesões pré-malignas cujo tratamento pode prevenir a maioria dos casos de cancro do colo do útero;
  • detecção de cancros numa fase / estádio inicial em que o tratamento tem maior probabilidade de ser eficaz.

Podem ser utilizados como métodos de rastreio: citologia, teste de HPV, associação de citologia e teste de HPV (co-teste) ou outros testes.

2.1. Citologia

A citologia ou teste de Papanicolaou permite detectar alterações nas células produzidas pela infecção pelo HPV.

É um procedimento simples e indolor que é realizado pelo médico durante a observação ginecológica. Após colocar o espéculo, o médico recolhe uma amostra de células do colo do útero, colocando-as, posteriormente, numa lâmina de vidro (citologia convencional) ou então as células são mergulhadas num pequeno recipiente com líquido (citologia em meio líquido).

A citologia em meio líquido é o método preferencial uma vez que tem vantagens em relação à técnica convencional: permite a realização na mesma amostra de testes complementares (como a pesquisa de HPV) e está associada a menor número de resultados insatisfatórios e de alterações de significado indeterminado.

Cuidados a ter antes da realização da citologia:

  • Não efectuar irrigações vaginais nas 48 horas anteriores ao exame.
  • Não ter relações sexuais nas 48 horas anteriores ao exame.
  • Não aplicar medicamentos vaginais (excepto por indicação expressa do médico) nas 48 horas anteriores ao exame.
  • Evitar o rastreio durante o período menstrual.

2.2. Teste de HPV

O teste de HPV detecta a presença da infeção por HPV de alto risco, através de uma amostra colhida da mesma forma que a citologia, ou seja, a partir de um esfregaço do colo do útero. Trata-se de um método de rastreio mais sensível que a citologia, permitindo distinguir entre as mulheres que estão em risco e as que não estão em risco de desenvolver cancro do colo do útero.

Contudo, a sua realização só está indicada em mulheres com idade igual ou superior a 30 anos, já que antes dos 30 anos a maioria (80%) das infecções são transitórias.

A partir dos 30 anos de idade o teste de pesquisa de HPV de alto risco é o teste recomendado para o rastreio do cancro do colo do útero, podendo ser realizado de 5 em 5 anos graças à elevada segurança associada a um teste negativo.

Existem vários testes de HPV disponíveis em Portugal:

Teste da captura híbrida – Permite fazer o despiste inicial da infecção por HPV. Não identifica genótipos de HPV individualmente. O resultado do teste é reportado como positivo ou negativo para HPV de alto risco.

Teste de genotipagem – Permite identificar os genótipos de HPV de alto risco. Tem menor sensibilidade clínica do que Captura Híbrida mas maior especificidade, pois permite identificar genótipos de alto risco.

2.3. Co-teste

A associação da citologia ao teste de HPV tem maior sensibilidade na detecção de lesões pré-malignas, possibilitando o alargamento do intervalo de rastreio nas mulheres de baixo risco.

2.4. Outros Testes

Teste mRNA E6/E7 – deve ser realizado quando existem infecções persistentes por genótipos de HPV de alto risco. Constitui um marcador de transformação neoplásica, permitindo diferenciar infecções transitórias de infecções persistentes com potencial oncológico.

Detecção p16/Ki67 – marcador de desregulação do controlo do ciclo celular. Quando positivo, permite identificar mulheres com elevada probabilidade de progressão para lesões pré-malignas e que devem ser tratadas.

 

Recomendações da Sociedade Portuguesa de Ginecologia para o rastreio do cancro do colo do útero (2014):

Início do Rastreio aos 21 anos e/ou 3 anos após o início da actividade sexual (o que ocorrer primeiro)
Opções e Periodicidade do Rastreio < 30 anos: citologia de 3 em 3 anos

30 anos: 3 opções de rastreio:

1.     Teste de HPV e citologia reflexa (se HPV positivo) de 5/5 anos (ideal)

2.     Citologia com teste de HPV associado (Co-teste) de 5/5 anos

3.     Citologia de 3/3 anos

Final do Rastreio Mulheres com idade > 65 anos e que, durante os últimos 10 anos, tenham realizado pelo menos três citologias com resultados normais ou um teste de HPV negativo aos 65 anos, têm um risco muito reduzido de vir a desenvolver cancro, pelo que devem discutir com o seu médico a continuação do rastreio.

 

Mulheres que tenham sido submetidas a histerectomia total (remoção do útero e do colo do útero) não necessitam de realizar o rastreio do cancro do colo do útero, a não ser se a cirurgia tiver sido realizada para tratamento de lesões cancerosas ou pré-cancerosas.

 

 

Referências Bibliográficas:

Consenso sobre infecção por HPV e neoplasia intraepitelial do colo, vulva e vagina. Sociedade Portuguesa de Ginecologia 2014.

www.ligacontracancro.pt

www.germanodesousa.com